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29 de Setembro de 2008 - Os desdobramentos da crise financeira, que começou como um problema de inadimplência dos créditos hipotecários de alto risco subprime nos Estados Unidos, estão expondo a cada dia que passa uma leviandade dos executivos dos bancos de investimento na venda de produtos financeiros, que não ficou restrita aos títulos subprime. A crise está mostrando um verdadeiro trem da alegria de produtos de risco, que incluiu em sua rota os mercados emergentes. Com certeza, a lábia dos bancos não encontraria solo fértil sozinha: sobrou ganância e faltaram o olho atento dos órgãos reguladores e o bom senso dos investidores, que abandonaram um mandamento básico do mercado: grandes ganhos correm grandes riscos.

As perdas com produtos financeiros, que ultrapassaram os limites da proteção ao risco do chamado hedge (proteção para oscilações de câmbio e juros) começam a pipocar no Brasil. A Sadia divulgou na última semana uma perda de R$ 760 milhões com operações financeiras. Outras empresas estão com problemas semelhantes, como a Aracruz.

Uma atuação questionável de dois bancos de investimento suíços já chamou a atenção dos órgãos reguladores brasileiros. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já estuda criar normas para impedir que bancos de investimento emprestem dinheiro e depois estruturem sua operação de abertura de capital. Das mais de 100 empresas que fizeram IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações), se contam nos dedos de uma só mão aquelas que não receberam antes empréstimo do mesmo banco de investimento que posteriormente organizou sua abertura de capital.

Com a fartura de dinheiro de investidores estrangeiros vindo para os mercados emergentes, em busca de melhores oportunidades de ganhos, os bancos de investimento enxergaram e abriram um nicho de negócio prodigioso: emprestar dinheiro para empresas e depois abrir seu capital. Com o produto IPO nas mãos, eles bateram na porta das empresas convencendo-as de que era um bom negócio pegar o dinheiro emprestado para preparar-se para abrir o capital. Com isso, os bancos não só pegavam o dinheiro emprestado de volta, mas recebiam juros com juros e mais uma comissão de lançamento do IPO - que é a mais gorda entre todos os outros envolvidos no processo, como mostram os prospectos de oferta de ações - num lucrativo negócio. Vendido o produto, lavavam as mãos.

O que vai acontecer com os bancos de investimento americanos com o passar da crise só o futuro dirá. Eles eram considerados as locomotivas do capitalismo atual. Especialistas em finanças internacionais dizem que eles nunca mais serão como antes. Outros acreditam que eles serão engolidos pelos bancos comerciais. Mas todos esperam um arrocho na regulamentação dos mercados financeiros, principalmente nos EUA, onde paradoxalmente ela era a mais frouxa.

Os EUA não são signatários dos acordos de Basiléia, mas não devem continuar fora, na opinião de especialistas em governança corporativa. Os bancos dos países signatários precisam obedecer a recomendações como: só emprestar 12 vezes seu capital e reservas, ponderados pelo risco de crédito (Basiléia I); reforçar o processo de supervisão quanto à suficiência de montante de capital nos bancos; divulgar mais informação sobre as fórmulas que utilizam para gestão de risco e alocação de capital.

Uma crise de dimensões mais modestas, como foi o caso da Enron em 2001, deu origem à mais rigorosa lei de controles internos e governança corporativa em vigor hoje no mundo, Sarbanes-Oxley (Sox). A lei nasceu da união de antagonistas tradicionais no Congresso americano, os republicanos, representados pelo deputado Michel Oxley, e os democratas, pelo senador Paul Sarbanes. Será que vem aí uma Sox para produtos financeiros?

Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 2
LUCIA REBOUÇAS - Editora de Governança Corporativa

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